domingo, 17 de junho de 2012

Leia o primeiro capítulo do livro Lara, A menina que não tinha boneca

18 de junho de 1947.
Elisa encontrava-se em trabalho de parto pela sexta vez. Suava com a dor que sentia, mas era estimulada a continuar com a ajuda de Miriam.
− Vamos, Elisa, força... Está quase nascendo!
A parteira enxugava o suor de sua testa e segurava-lhe a mão.
− Não estou aguentando mais − a parturiente gritava.
− Calma, Elisa, só mais um pouco... Você consegue!
As rugas de preocupação de Miriam vincavam-lhe a testa. Nunca havia feito um parto tão demorado; este já durava mais de quatro horas de agonia. Elisa se exauria a cada instante que se prolongava. Respirava ofegante e contava apenas com o apoio da parteira para continuar. − Vamos, Elisa, falta pouco − animava Miriam, embora se preocupasse cada vez mais.
Elisa já estava quase desistindo, quando a dor cortou-a de maneira impiedosa. Ela soltou um grito, o maior de todos, e Miriam empurrou com vigor redobrado a sua barriga, de cima para baixo, fazendo com que o bebê, enfim, nascesse. O choro anunciou a chegada de mais uma criança àquela casa. Miriam acolheu o bebê nos braços e sorriu para Elisa dando-lhe a notícia:
− Parabéns, Elisa! É uma menina! Respirou ofegante, com o cansaço de puro prazer que somente o final de um trabalho de parto bem-sucedido pode proporcionar. Emitiu um suspiro de alívio e olhou para Miriam, recebendo sua pequenina nos braços. Emocionada, chorou de felicidade. Curtiu aquele momento de ternura que se instaurara em seu íntimo, preenchido por uma onda de amor. Uma expressão de preocupação vincou-lhe a testa, ao se lembrar do marido. Temia a sua reação diante da sexta menina. Parou por um instante e disse à Miriam com a voz trêmula:
− Diga ao Antônio para entrar. Arrumou o cabelo com os dedos, enxugou o suor da testa com as mãos, respirou fundo. − Seja o que Deus quiser... − sussurrou baixinho para si mesma, abraçando ainda mais sua filha. Um frio na espinha a envolveu e, quando se deparou com o marido na soleira da porta, disse a primeira coisa que lhe veio à mente:
− É um menino!
Antônio a olhou desconfiado e percebeu que algo estava errado. Paralisada pelo terror, Elisa não o encarou. Daria tudo para descobrir o que seu marido estava lhe armando e o que seria capaz de fazer. A reação dele surpreendeu-a. Com um safanão, Antônio arrancou o bebê de seus braços, desembrulhou-o do lençol e foi conferir na mesma hora.
Elisa esticou os braços e gritou: − O que você está fazendo, Antônio?
Ao certificar-se do sexo do bebê, gritou como um insano: − Você está louca! É outra menina! Você não presta pra nada mesmo, nem pra me dar um herdeiro de verdade; apenas mulheres, que só vão me trazer despesas e dores de cabeça.
Antônio jogou o bebê em seus braços e saiu às pressas. Elisa abraçou com força a filha, que soluçava após a brutalidade do pai, e choraram juntas. Demoraram a se acalmar. Se ela soubesse o que fazer para satisfazer a necessidade do marido em ter um filho, perpetraria a qualquer custo. Acalmou a criança com uma canção de ninar. Miriam segurou a neném enquanto Elisa levantava-se, trocava de roupa e tirava os lençóis sujos de sangue. Acomodou-se na cama, já arrumada, e pegou a filha em seus braços. Olhou para seu rosto doce e delicado e disse sorrindo:
− Você vai se chamar Lara!
A parteira buscou as meninas que se distraíam com bonecas de palha de milho feitas pela mãe, no quarto ao lado.
− Vamos conhecer sua irmãzinha? − perguntou Miriam. As três meninas correram alvoroçadas pelo corredor e quando chegaram na frente do quarto de Elisa, esperaram Miriam abrir a porta.
− Entrem. A primeira a apontar foi Isabel, a mais velha. De tanto presenciar a ferocidade do pai com sua mãe, adquirira uma eterna ponta de tristeza no olhar. Com apenas 6 anos, trazia Aline de 2 anos em seus braços e chamava Rita, a do meio, para verem a recém-nascida. Elisa sorriu e disse com a voz doce e suave:
− É uma menininha, igualzinha a vocês.
Isabel sorriu encantada com a pequenina. Parecia uma bonequinha de porcelana. Suas mãos eram tão minúsculas que dava medo até de encostar nos dedinhos. Rita achou engraçado o bebê se mexer:
− Nossa! É de verdade, mãe!
− É sim, filha, e quando crescer vai gostar muito de brincar com vocês.
− Ah! Então ela vai crescer?
− Você também era assim. Todo bebê nasce pequeno e cresce até ficar “grandão”, como a mãe.
− E amanhã eu já posso brincar com ela?
Elisa sorriu.
− Vai demorar só um pouquinho... Todas se assustaram com o bater da porta. Antônio adentrou com um barulho avassalador, empurrou-a com força e gritou:
− Estou com fome; não vai ter jantar hoje?
− Eu já vou. − balbuciou Elisa. Esforçou-se para levantar da cama e suportar as dores causadas pelo parto. Miriam esperou Antônio sair e se ofereceu para fazer o jantar.
− Se você quiser, eu deixo tudo pronto.
− Deixa, Miriam, senão Antônio não vai gostar.
− Mas você tem que descansar.
− Eu sei, mas não posso. Você conhece meu marido. Colocou Lara sobre a cama e sorriu para as meninas:
− Cuidem bem de sua irmã. Eu já volto – piscou para a mulher e foi até a cozinha, com passos bem lentos, segurando-se nas paredes.
Miriam não queria deixar Elisa sozinha. Tinha medo do que Antônio era capaz. Resolveu ficar com as meninas, ajeitando o quarto e explicando à Isabel como poderia ajudar a mãe a se recuperar melhor e mais rápido. Enquanto Elisa fazia o jantar, Antônio puxou a cadeira e sentou-se próximo a ela. Elisa o observava pelo canto do olho e temia que ele começasse uma discussão por qualquer coisa.
− Da próxima vez que você mentir pra mim, sua inútil, eu te mato! Sentiu vontade de correr, gritar, fazer qualquer coisa para se libertar daquela situação. No entanto, ficou imóvel diante daquele medo que a dominava. Os pés pareciam cravados ao chão. Não que tivesse medo de morrer; aliás, para viver naquelas condições, preferia que Deus a levasse para outro lugar. Então, pensava em suas filhas. O que a segurava àquela vida ingrata, infeliz e dolorida eram elas. Tinha um carinho muito grande por todas. Amava-as mais do que tudo no mundo. Era movida pelo amor materno. Nada e nem ninguém tiraria isso dela.
Serviu ao marido arroz, feijão, dois ovos cozidos e salada de alface. A parteira veio até a cozinha e despediu-se de Elisa na porta.
− Não quer comer nada, Miriam?
− Não te preocupa, Elisa, tenho que fazer a janta também.
− Muito obrigada, Miriam, e que Deus te acompanhe!
− Imagina, Elisa, e se precisar é só me chamar. − Antes de fechar a porta, olhou bem séria para Antônio, como que desaprovando as suas atitudes para com a esposa. Elisa chamou as meninas para jantar e, enquanto colocava apenas arroz com caldo de feijão no prato, observava o marido comer como um camelo faminto. As três se acomodaram nas cadeiras, esperando que ela colocasse seus pratos sobre a mesa.
− A neném já dormiu – disse Isabel.
− Obrigada, filha − disse Elisa, sorrindo.
Quando Antônio acabou de comer, levantou-se e foi se sentar na sacada. Elisa ficou feliz ao ver o ovo cozido deixado no prato pelo marido, assim as meninas teriam mistura. Dividiu-o em três partes e elas se deliciaram com aquele minúsculo pedaço de ovo. Para Antônio, o importante era arroz e feijão. Mistura era para quem trabalhava. Antônio tinha uma loja de máquinas Elgin, era representante da Mesbla e, ainda, dono de um pequeno armazém − conhecido naquela época por venda. Embora tivesse economizado um bom dinheiro do que arrecadara com o seu trabalho, não se preocupava em agradar ninguém, muito menos a própria família. Não deixava passar nenhum mísero centavo nos trocos, mas também não gastava aquele dinheiro todo com nada.
  Após terminar de arrumar a cozinha, Elisa colocou as filhas para dormir e dirigiu-se ao banheiro. Ao lavar o rosto para se deitar, olhou-se no espelho e notou os traços vincados, causados pelo sofrimento de tantos anos. Ajeitou para trás os cabelos longos e sem brilho, desalinhados, cujos fios grudavam-lhe na pele. Tinha a feição cansada e desgastada, olheiras salientes que se destacavam na pele pálida, e os lábios brancos e sem vida. Tudo o que conseguia visualizar no rosto era o seu passado e o que a fizera chegar até ali.

 

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